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Sexta-feira, 21 de Dezembro de 2007

Carpe Diem - Seize the day - Aproveitem o dia

No magnífico filme "Clube dos Poetas Mortos" ( um dos melhores a que alguma vez assisti), Robbin Williams protagoniza a personagem de um professor revolucionário, fracturante e provocador (John Keating), com tudo o que de heresia essa atitude representa num colégio ultra-conservador da década de 50, nos EUA.

O Prof John Keating, assaz mordaz e convincente, corta radicalmente com preconceitos instituídos, filosofias de ensino incontornáveis, e modus operandi fossilizados na referida instituição, instigando os seus alunos a aderirem a novas formas de estar na vida.

Quebrando com os dogmas contidos nos livros, a personagem leva os seus alunos a interpretarem a vida segundo a régua e esquadro da poesia, adoptando novas formas de abordagem perante aquilo que parece ser a realidade fria e seca de todos os dias. Na verdade, perante a aridez e o vazio de quem vive cada dia com cansaço e sacrifício, John Keating fornece a alternativa: O Carpe Diem. O aproveitar o dia. Cada dia... Como se fosse o último.

Esta nova filosofia conduz à ruptura com a standardização de comportamentos. Combate toda e qualquer tentativa de esbater a identidade que nos distingue, e que nos é própria. Essa identidade pessoal, quando vista segundo esta nova filosofia, e quando partilhada com os demais, leva-nos necessariamente ao debate de ideias, de desejos, de expectativas e de estratégias que cada um utiliza para alcançar os objectivos a que se propõe.

A Sociedade actual, tal como ela está organizada, orienta os seres humanos para uma espécie de linha de produção, cujos produtos em desfile são eles próprios... os seres humanos. Ouvem-se as mesmas notícias, as mesmas opiniões, vêem-se os mesmos programas, lêem-se os mesmos livros, e os mesmos filmes, come-se e dorme-se à mesma hora, fala-se das mesmas coisas....

Nada nos distingue dos nossos pares. De sumo e de produto final, somos muito pouco. Alimentamos pouco a nossa alma. Quase nada sabemos das ciências, das obras poéticas, e das novas filosofias. Preferimos contos para crianças, ou bandas desenhadas aos quadradinhos...

Somos como Álvaro de Campos: frenéticos, stressados, envolvidos e maquinizados. Ou isto ou como Alberto Caeiro: entertidos, distraídos... inertes e incapazes.

É triste... "A velhice vem, e esta flor, hoje viçosa, amanhã estará morta".

Sexta-feira, 7 de Dezembro de 2007

Mais uma foto de família?

A Cimeira UE - África terá início amanhã, e prolongar-se até Domingo, dia 9.

Com tanta especulação e entusiasmo gerada em torno deste evento, urge estarmos atentos ao modo como as coisas se irão desenrolar.

Em primeiro lugar, cumpre-nos afirmar a indispensabilidade da sua realização. A renovação das perspectivas oftalmológicas que a Europa (e o Mundo) têm relativamente ao continente africano é absolutamente essencial. Temos de deixar de ver África como uma oportunidade única para a apropriação de utilidades, e estabelecer com os responsáveis políticos um clima estável, propício a negócios justos e lucrativos para ambas as partes.

Mas África tem também de passar a ser um problema de todos nós, tem de nos envolver e de nos consumir. A multiplicação de monstros em formato de Homens tem de acabar. "Pessoas" como Robert Mugabe não podem ter voz activa nas cimeiras da União, nem nunca deviam ter sido convidadas para tomar lugar no evento. Dono e senhor do Zimbabwe, o velho ditador governa um país com 4 milhões de seres humanos a morrer à fome, com uma economia cuja taxa de inflação se situa nuns inimagináveis 15 000% (!!!), e com uma população cuja esperança média de vida é de 37 anos, no caso dos Homens, e de 34, nas mulheres.

Por todo o significado que esta cimeira poderá representar, a presença deste senhor em Lisboa é, só por sí, insultuosa e irresponsável.

Esperamos seriamente que esta Cimeira não tenha como desfecho mais uma agradável e sorridente foto de família, passando ao lado das questões humanitárias, económicas e geopolíticas que inquietam os espíritos menos demagógicos.

Sábado, 1 de Dezembro de 2007

Mania da Perseguição

Hoje escrevo revoltado.

Estou triste com a minha família, que é quem tem o dever de me conhecer melhor.

Acusam-me de estar distante, de me ter tornado uma pessoa fria, e indiferente ao nosso habitué diário. Dizem que me refugio nos livros, nos pensamentos e reflexões alheios para me evidenciar das pessoas com quem lido desde pequeno.

Culpam-me pela escravidão da leitura, e pela entrega de corpo e alma à análise das obras que traçaram a História deste mundo em que vivemos. Apontam-me o dedo por pensarem que o faço nao por ser essa a minha vontade genuína, mas por querer parecer mais importante que eles. E culpam-me por não se interessarem por essas coisas.

Que injustiça! Eu posso nunca ter conseguido atingir os níveis de humildade que eles gostavam, mas nunca deixei de me esforçar por ser modesto de espírito. Sempre me esforcei por não parecer mais do que aquilo que sou: trabalhador, esforçado, interessado e envolvido por tudo quanto me permita filosofar na vida.

Mas hoje, vejo (com uma clareza que dói), que a postura que tenho levado nesta minha curta vida não é bem vista por todos. Valores como a simplicidade, a franqueza, e a humildade são mais importantes que o objectivo de conhecimento que persigo desde que me lembro de ser criança...

Que fardo! Estou profundamente convencido de que estou a fazer a coisa certa, e todos me dirigem um olhar fulminante por estudar quando a conversa que se está a ter não me interessa. Ou quando a televisão demonstra, com todo o vigor, toda a doença daqueles a quem cumpre seleccionar os seus programas... e pego num livro... ou num bloco de notas... ou num filme que devia ter visto e que ainda não tive oportunidade...

Eu gosto de Golfe, de Fórmula 1, de museus e de música clássica, gosto de arte, de comédia fina, de filosofia, sim, ADORO! Mas também gosto de uma sandes de leitão comida à mão, e acompanhada à cerveja, gosto de sair com os amigos e de beber como se não houvesse amanhã, de ir à caça com o meu pai, de jogar à sueca e de conhecer suecas, mas também mexicanas, angolanas, francesas ou jamaicanas..... E de acordar no dia seguinte e não me lembrar das figuras que fiz!

Eu gosto é de aproveitar a vida... e é com isso em mente que não posso abdicar das minhas prioridades profissionais, nem dos meus gostos pessoais, sejam eles de menino rico ou não...

Parece que não me conhecem... Posso ter objectivos diferentes que eles, mas não é por isso que sou mais ou menos virtuoso. Não sou eu que acredito que sou mais importante. São eles!

Quarta-feira, 21 de Novembro de 2007

Alguém que lhes passe um atestado médico...

O Governo da República está doente. O Estado Português prepara-se para distribuir seringas nas prisões portuguesas. A medida consta do PETS – Programa Específico de Troca de Seringas - e levanta gravíssimas dúvidas a qualquer espírito atento, e sobretudo sensível às questões essenciais que se colocam à governação de um país.

Estamos perante uma medida promovida oficialmente pelo Estado, que consiste, na prática, na distribuição de seringas pelas prisões, cuja utilização se pretende contribuir para evitar a contaminação e propagação de doenças infecto-contagiosas em meio prisional.

Parece-me claro que não são poucas as objecções possíveis de se fazerem a uma medida tão irresponsável como esta.

Será possível que não haja verbas para manter um hospital, uma maternidade, ou uma escola ou qualquer outro serviço público daqueles que foram mandados encerrar, com o dinheiro destinado à aplicação deste programa? Será que as pessoas têm de ser sujeitas a pagar, com os seus impostos, as tão indispensáveis seringas que os reclusos tanto necessitam?

Por que será que os pais e as mães deste país têm de pagar para protegerem os seus filhos das meningites, ou as pessoas mais idosas têm de fazer contas à vida para comprarem os seus medicamentos, e os senhores reclusos têm de ter livre acesso às suas imprescindíveis drogas? Será esta a verdadeira matriz de um Estado Social?

O que dirá o Governo ao primeiro guarda prisional que for ameaçado com uma seringa contaminada? E o que dizer da mistura, por vezes na mesma cela, dos reclusos que aderem ao programa, com os que se recusam a aderir, por não necessitarem, ou mesmo por não quererem? Não será uma seringa nas mãos de um toxicodependente uma arma, em potência? Se o é cá fora, à luz do dia, como é que não o é lá dentro?

Por último, mas não menos importante: Não será este programa “PETS” o reconhecimento vergonhoso da incompetência do Governo para acabar com o consumo e tráfico de droga dentro dos estabelecimentos prisionais? E se não o conseguem fazer numa prisão, um local fechado, e permanentemente vigiado, como é que garantem a segurança das pessoas fora do recinto prisional? Será alimentando um vício que se dará seguimento à reinserção social dos reclusos?

Os princípios morais, filosóficos, ou religiosos são, ou devem ser, o alicerce fundamental da acção de qualquer indivíduo. Independentemente da moral, filosofia, ou religião em causa, cada pessoa deve pensar e agir de acordo com as orientações da sua consciência. Em política, de igual modo, nada assume maior importância do que o respeito pelos valores constitucionais, régua e esquadro de toda a actividade política. O programa PETS constitui uma grave violação dos direitos fundamentais de prossecução da justiça e segurança, enquanto deveres elementares do próprio Estado, pelas questões que levanta, e que deixa sem resposta, surgindo como resultado incontornável o respectivo fulmínio por inconstitucionalidade.

Quarta-feira, 7 de Novembro de 2007

À minha avó: TODO O AMOR EM PALAVRAS

Por sonhares o que poucos ousam sonhar.

Por realizares aquilo que te disseram que não podia ser feito.

Por alcançares a estrela inalcançável.




Essa foi a tua lição: alcançar essa estrela.

Sem quereres saber quão longe ela se encontrava;

Nem de quanta esperança necessitarias;

Nem se poderia ser maior do que o teu medo.




Por carregares sobre os ombros o peso do mundo.

Por lutares pelo bem sem descanso e sem cansaço.

Por enxugares todas as lágrimas ou por lhes dares um sentido luminoso.

Levaste a tua vida onde foste precisa.

Pisaste terrenos que muitos valentes não se atreveram a pisar.

Partirás para longe, um dia, talvez sem saíres do mesmo lugar.




Por amares com pureza e bondade.

Por devolveres à palavra "amigo" o seu sabor a vento, e rocha.

Por teres filhos nascidos do teu corpo, mas muitos mais oriundos da tua alma.

Por sofreres aquilo que não sabias ser capaz de sofrer.

Por teres vivido da bondade que a tantos mata.

Por saberes as cores que existem por dentro do silêncio.

Continuarás quando os teus braços estiverem fatigados.

Olharás para as tuas cicatrizes sem tristeza.




Por gritares, mesmo calada, os verdadeiros nomes de tudo.

Por mostrares que se pode viver de luar quando se vai por um caminho que é principalmente de cor e de espuma.

Levantaste do chão cada pedra das ruínas em que se transformavam as gentes.

Uma força que não é tua, nem dos teus braços.




Por ires mais além.

Por passares cantando perto daqueles que viveram poucos anos e já envelheceram.

Por puxares por um braço, com carinho, esses que passam a tarde sentados em frente a uma cerveja.

Dirás até ao último momento: "ainda não é suficiente".

Disposta a ires às portas do abismo salvar uma flor que quase resvala.

Disposta a dar tudo pelo que parece ser nada.




Por teres tocado o intocável.

Por haver em ti um sorriso que a morte não conseguirá arrancar.

Por teres encontrado a luz de cuja existência sempre suspeitaste.

Por teres alcançado a estrela inalcançável.

A importância de tomar chá quando se é pequeno

O optimismo dos cidadãos de um Estado no futuro do seu país não se constrói pela multiplicação desenfreada de manobras de propaganda. O rigor e a determinação de quem governa, não se podem confundir com o autoritarismo e a irredutibilidade da razão, que é a sua. Só a sua. Sempre a sua.

Este Governo engana, doutrina, dá o dito por não dito, decide com a arrogância e a prepotência que pretende sabedoria. Arroga-se na presunção do conhecimento do que é melhor para toda a gente.

Diz o povo que não há semente que se pague mais do que a da língua.

O Governo Socialista prometeu mundos e fundos, da obra executável, ao “sebastianismo socrático”. Chegou pois a hora, mais de dois anos volvidos desde o começo do mito, de confrontarmos os programas eleitorais, as promessas esquecidas, com a obra realizada. Para o Governo que chama a si a sapiência plena e absoluta do que é melhor para o seu povo (qual mãe que afirma e decide sobre o que é melhor para os seus filhos), nada deveria possuir mais valor do que o bom conselho, seguido do melhor exemplo. Pura ilusão!

Senão analise-se: Quem não se lembra das promessas do Sr. Primeiro-ministro em reforçar a coesão nacional, numa sociedade com menos pobreza e com mais igualdade de oportunidades? Os 300.000 pensionistas que o Partido Socialista dizia estarem prestes a ser retirados da pobreza, esses não se esqueceram, com toda a certeza. Muito menos os alunos do ensino secundário que no ano passado não puderam ficar melhor colocados nos concursos de acesso ao ensino superior, graças à tal “igualdade de oportunidades”, que se aplicou apenas àqueles que o Governo autoritariamente quis e decretou, leia-se, os examinandos de Matemática e Química, excluindo quaisquer critérios de sensibilidade e justiça.

E o que dizer da promessa de criação de 150.000 novos postos de emprego, banalizada e multiplicada por mil, em cartazes enormes e promissores espalhados por Portugal inteiro? Talvez dizer apenas que a taxa de desemprego atingiu no 2º trimestre de 2007 os 7,9%, depois de ter atingido os 8,4% no trimestre anterior, um valor que foi o mais alto dos últimos largos anos.

Poder-me-ia prolongar muito mais na discrepância das palavras, no vazio das ideias e na camuflagem dos números, mas temo que estes dados bastem para percebermos quem nos (des)governa. Os portugueses hão de saber o que fazer com quem os engana. Não tenhamos medo de pôr o dedo na ferida.

Domingo, 28 de Outubro de 2007

José Cutileiro fez das palavras magia...


A política, uma das ocupações mais nobres a que alguém se possa dedicar,
é um entrançado de altos ideais e de estratagemas sórdidos.
Quem apenas for capaz de um dos dois que vá fazer outra coisa:
que entre para uma igreja – ou que se junte a uma máfia.
Poderá dar um bom santo ou um bom inimigo público; para político não serve.

José Cutileiro, Expresso, 21.09.2002